Andar alguns minutos sem estímulo nenhum começou a parecer mais raro do que deveria.
Não chega a ser exatamente cansaço, nem descanso.
É outra coisa, uma vontade discreta de diminuir o ritmo, de evitar excesso de informação, de passar um tempo sem precisar reagir a tudo o que acontece.
Durante muito tempo, preencher cada intervalo parecia quase automático: responder, atualizar, acompanhar, opinar, manter algum nível de presença constante.
Como se “estar” ausente, mesmo que por pouco tempo, pedisse uma explicação.
Em algum momento isso começou a pesar, não de forma dramática, só o suficiente para tornar certos excessos mais evidentes: estímulos demais, opiniões demais, desempenho demais.
E um detalhe começou a chamar atenção, a dificuldade de não fazer nada por alguns minutos sem pegar o celular, como se o silêncio precisasse ser preenchido.
Aos poucos, o silêncio foi ganhando outra leitura. Não como ausência, mas como escolha. Não como falta, mas como um tipo diferente de presença.
Ambientes mais contidos, rotinas menos expostas, conversas que não precisam ser interrompidas a cada notificação. Mais do que reduzir, deixar de responder a tudo.
Engraçado como aquilo que antes poderia parecer vazio começou a carregar outro valor.
Hoje, conseguir passar algum tempo sem estímulo constante, começa a parecer mais valioso do que deveria. E talvez o silêncio não tenha virado tendência, apenas tenha parado de parecer estranho.



